"Mais uma vez!", desabafava um inconformado cristão, antecipando o tempo que hoje começa. "Todos os anos a mesma coisa. Como se já não soubéssemos que Ele vai nascer, já nasceu há uns anos atrás...". Sim, e apesar disto a Igreja insiste todos os anos num tempo chamado Advento, que se propõe ajudar os cristãos a preparar o Natal.Para quê estar constantemente a relembrar algo que é público e notório? Não será visível? Luzes, compras, papel de embrulho, músicas melodiosas, azevinho, pinheiros, decorações multicolores... muitas vezes já em Outubro. O que mais há a acrescentar? Já não será suficientemente exagerado?A resposta a estas questões parece ser de uma evidência gritante. O Natal pode parecer uma mera comemoração se não soubermos decifrar o seu significado mais profundo. Não podemos ficar indiferentes à intensidade do grito de Isaías: "Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis!"(Is 63, 19). Sim, Isaías, Ele desceu e está entre nós! Veio e ficou. Aquele que é imensamente grande, infinitamente distante da nossa pequenez, decidiu descer ao encontro da 'nossa' fraqueza. O Rei, monarca de todos os poderes, abandonou o seu palácio e desceu à humilde habitação do seu povo. O rico fez-se pobre; o são, doente e o poderoso frágil.O Natal é um grito no meio do deserto, um gesto sublime cuja irreverência nos sufoca. Deus veio, fez-se um de nós, arriscou aproximar-se. Advento significa "vinda", a descida tão esperada pelo povo do Senhor. O Senhor dos tempos não ficou indiferente perante a súplica da humanidade. O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; aqueles que caminhavam convencidos de que a sua vida apenas se dirigia para o termo, encontraram a esperança; aqueles que viviam no desespero da dor já não estão sós. Os mais cépticos não podem deixar de se divorciar da dúvida. Deus fez-se homem, estendendo a mão àqueles que havia escolhido. Que amor é este que rejeita todo o orgulho ferido e se não deixa fechar na própria dor?O amor é a saída para todas as nossas dúvidas e inquietações. Não há maior lição a aprender nesta vida. Nem os maiores cientistas o poderão revelar com maior clareza. Quando o infinitamente rico se faz pobre, quando o infinitamente grande se faz pequeno, quando o infinitamente poderoso se faz frágil, eleva-se algo de sublime. Só o amor pode provocar tais decisões. Deus sofre com o nosso sofrimento, sente o nosso grito incessante por um sentido mais profundo. Porque nos ama não suporta a nossa dor. A sua resposta vem através da sua revelação à humanidade. A vinda de Jesus Cristo é a resposta definitiva de Deus pois só n'Ele encontramos a saída para todas as nossas inquietações.Toda a humanidade deseja a felicidade, esse estado de existência sereno e optimista. Por que não O encontramos? Ninguém nesta vida está imune ao amor. Todos experimentámos os seus efeitos, como este nos transforma e nos faz relativizar o nosso próprio ego. Ser humano, ser verdadeiramente humano, é amar. A alegria que todos os homens e mulheres perseguem desde sempre encontrou uma resposta. Na fragilidade do Menino que está a vir encontra-se a resposta paradoxal. Não há mais segredos por revelar. Por que continuamos à procura de respostas quando o que profundamente desejamos está tão claro e evidente?Queres ser feliz? Então escuta a voz profunda que vem da pequenez da gruta. Vigia e ora. Sê humano. Sê aquilo que és. Reconhece a infinidade da tua existência e abre as mãos. Abraça, levanta, procura, dá! Rejeita a tua razão sempre soberana e quebra definitivamente as cadeias do 'eu', porque Aquele que tudo era, tudo rejeitou para verdadeiramente ser.Vive e sê! E tudo o resto virá a seguir.
Rui Ferreira
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