
Qual é o teu nome cristão? O meu é Francisco, mas aqui onde estou a maioria das pessoas conhece-me por 馬家鐸, ou seja Ma Jia Duo. É que F-r-a-n-c-i-s-c-o é um bocado complicado de dizer, enquanto Ma Jia Duo não só lhes parece mais simples como tem um significado mais óbvio: sacerdote da comunidade, sacerdote próximo. Não sou padre, estou a formar-me para ser, e neste processo fui percebendo que Deus me convidava a oferecer-me à China, aos chineses, e à Sua Providência. Sou Jesuíta, tenho 24 anos, estou em Taiwan a aprender chinês, e acho graça ao desafio de ir partilhando para o Essejota a experiência que vou tendo "de longe" e "do longe".
Falei no nome cristão, porque é um pequeno exemplo que mostra algo muito importante. Mudar radicalmente de contexto não é fácil, mas permite ver muitas coisas que antes não víamos. No chamado Ocidente, a maioria das pessoas é “baptizada”, ou seja, de um modo ou de outro vive num meio que ainda tem muito de cristão. Por muito ateus ou indiferentes que possamos ser, o Cristianismo é uma realidade com a qual, no mínimo, já contactámos. Aqui acontece o oposto: o Cristianismo é uma realidade com a qual um mínimo de pessoas já contactou. Precisava mesmo de sublinhar esta ideia porque para mim deixou de ser apenas ideia: o tesouro mais importante que descobri na vida - o amor que Deus me tem, e tem por cada ser humano - é uma realidade desconhecida para muitos milhões de pessoas.
Para mim ser missionário significa viver de modo a tornar visível e palpável a presença de Deus nos lugares em que Ele parece não estar. Para isso temos antes que trepar a verdadeira “muralha da China”, que é a sua língua. Trata-se de ir ao encontro das pessoas na língua do seu coração, tal como Cristo veio ao nosso. Em média, um aluno aos 18 anos sabe uns 5000 caracteres, ou seja, memorizou 5000 desenhinhos diferentes, a pronúncia e tom de cada um, os significados possíveis e suas combinações. A reacção natural (que eu tive e terei muitas vezes) é: “Que estupidez, inventar um desenho novo para cada conceito! Não era mais fácil escolher 25 letrinhas e juntá-las para formar palavras?!” Não, não é estúpido, é diferente e eu, por mais chinês que saiba serei sempre diferente dos chineses. Diante de cozinhados estranhos, gramáticas aparentemente absurdas, ou modos de agir que não compreendo, há duas atitudes possíveis: resistir na minha superioridade, e permanecer um triste estranho para sempre; ou abrir-me ao novo esperando alargar a medida interior, e permanecer um estranho, mas alegre e de braços abertos.
Cada dia traz horas e horas de caracteres mas, felizmente, há momentos que enchem essas horas de sentido. A missa do galo, no Natal, foi um momento muito marcante. Fui à igreja da Universidade Católica, onde estudo, e estavam umas 500 pessoas. No momento da comunhão começaram a formar-se as filas e quase toda a gente avançou de mãos estendidas. Mas, em vez de lhes dar a comunhão, o sacerdote perguntava a cada um: “és baptizado, fizeste a primeira comunhão?”. Se a pergunta já é estranha, mais incríveis eram as respostas: “Não sei!”; “Acho que sim!”; “Uma vez já fui à missa…”, etc… O resultado final foi que um terço das pessoas comungou, o resto recebeu uma bênção e talvez um toque de Deus acerca daquele Menino que nasceu para nós. Por que é que foram lá? Os entendidos dizem-me que foram porque queriam “bênçãos” de boa sorte, porque havia comida no final, ou por curiosidade.
Depois da missa pude falar um bocado, num chinês que só se entende com muita caridade e educação orientais, com uma moça que veio à missa pela primeira vez. Estava sozinha no dormitório da Universidade e decidiu experimentar. Já me esquecia; o dia de Natal é como os outros: há aulas, trabalha-se, e a vida continua com os seus 13 milhões de motas, e outros tantos automóveis em circulação… Ela disse-me que há muitas coisas (de Deus) que não compreende e eu lá tentei partilhar um pouco a importância que o Natal tem para nós. Senti-me impotente, tosco, mas também senti a mão do Senhor poisar sobre aquelas pessoas, nem que seja para semear nos seus corações uma curiosidade que pode mudar as suas vidas. Senti a paz de que quem se experimenta no sítio certo, e isso ajudou a viver as saudades que senti do nosso Natal português.
Falei no nome cristão, porque é um pequeno exemplo que mostra algo muito importante. Mudar radicalmente de contexto não é fácil, mas permite ver muitas coisas que antes não víamos. No chamado Ocidente, a maioria das pessoas é “baptizada”, ou seja, de um modo ou de outro vive num meio que ainda tem muito de cristão. Por muito ateus ou indiferentes que possamos ser, o Cristianismo é uma realidade com a qual, no mínimo, já contactámos. Aqui acontece o oposto: o Cristianismo é uma realidade com a qual um mínimo de pessoas já contactou. Precisava mesmo de sublinhar esta ideia porque para mim deixou de ser apenas ideia: o tesouro mais importante que descobri na vida - o amor que Deus me tem, e tem por cada ser humano - é uma realidade desconhecida para muitos milhões de pessoas.
Para mim ser missionário significa viver de modo a tornar visível e palpável a presença de Deus nos lugares em que Ele parece não estar. Para isso temos antes que trepar a verdadeira “muralha da China”, que é a sua língua. Trata-se de ir ao encontro das pessoas na língua do seu coração, tal como Cristo veio ao nosso. Em média, um aluno aos 18 anos sabe uns 5000 caracteres, ou seja, memorizou 5000 desenhinhos diferentes, a pronúncia e tom de cada um, os significados possíveis e suas combinações. A reacção natural (que eu tive e terei muitas vezes) é: “Que estupidez, inventar um desenho novo para cada conceito! Não era mais fácil escolher 25 letrinhas e juntá-las para formar palavras?!” Não, não é estúpido, é diferente e eu, por mais chinês que saiba serei sempre diferente dos chineses. Diante de cozinhados estranhos, gramáticas aparentemente absurdas, ou modos de agir que não compreendo, há duas atitudes possíveis: resistir na minha superioridade, e permanecer um triste estranho para sempre; ou abrir-me ao novo esperando alargar a medida interior, e permanecer um estranho, mas alegre e de braços abertos.
Cada dia traz horas e horas de caracteres mas, felizmente, há momentos que enchem essas horas de sentido. A missa do galo, no Natal, foi um momento muito marcante. Fui à igreja da Universidade Católica, onde estudo, e estavam umas 500 pessoas. No momento da comunhão começaram a formar-se as filas e quase toda a gente avançou de mãos estendidas. Mas, em vez de lhes dar a comunhão, o sacerdote perguntava a cada um: “és baptizado, fizeste a primeira comunhão?”. Se a pergunta já é estranha, mais incríveis eram as respostas: “Não sei!”; “Acho que sim!”; “Uma vez já fui à missa…”, etc… O resultado final foi que um terço das pessoas comungou, o resto recebeu uma bênção e talvez um toque de Deus acerca daquele Menino que nasceu para nós. Por que é que foram lá? Os entendidos dizem-me que foram porque queriam “bênçãos” de boa sorte, porque havia comida no final, ou por curiosidade.
Depois da missa pude falar um bocado, num chinês que só se entende com muita caridade e educação orientais, com uma moça que veio à missa pela primeira vez. Estava sozinha no dormitório da Universidade e decidiu experimentar. Já me esquecia; o dia de Natal é como os outros: há aulas, trabalha-se, e a vida continua com os seus 13 milhões de motas, e outros tantos automóveis em circulação… Ela disse-me que há muitas coisas (de Deus) que não compreende e eu lá tentei partilhar um pouco a importância que o Natal tem para nós. Senti-me impotente, tosco, mas também senti a mão do Senhor poisar sobre aquelas pessoas, nem que seja para semear nos seus corações uma curiosidade que pode mudar as suas vidas. Senti a paz de que quem se experimenta no sítio certo, e isso ajudou a viver as saudades que senti do nosso Natal português.
Francisco Machado
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