Propomos o evangelho segundo São Marcos: o próprio e em versão integral. Não sei se alguma vez nos lançámos a tanto. Talvez já tenhamos escutado partes, pequenas histórias, episódios, frases soltas, mas nunca nos habituámos à ideia que os evangelhos são livros e que os livros se podem e se devem ler como um todo. No evangelho de Marcos, como no mais moderno dos romances, há esse convite aberto, subtil mas eficaz, pelo qual a obra se revela caminho trilhado e o leitor viajante decidido. A intermitência com que lemos ou escutamos os evangelhos não nos permite saborear esta riqueza, deixa-nos apenas com os estilhaços da arte narrativa dos evangelistas.Além disso, ler um dos evangelhos traz-nos ainda uma dificuldade acrescida. Visitá-lo na íntegra pede de nós uma espécie de inocência curiosa de quem nunca nada escutou. Não se pode ler para recordar. Não se pode ler para rever. Marcos, concretamente, não nos quer premiar com um conjunto de histórias edificantes; não nos quer contar episódios. Quer, sim, desvendar-nos uma figura, Jesus, o “Filho de Deus”, e convidar-nos a uma história de discipulado. O leitor é discípulo, o leitor deste evangelho só o é se se dispuser a comer, a beber, a viver, a espantar-se, a entristecer-se, a sofrer e a alegrar-se como se tudo lhe acontecesse, a ele como aos outros discípulos, pela primeira vez.Sem “chaves-de-leitura”, sem preconceitos literários e moralistas, sem medo de questionar (e de ser questionado), colocar-se inteiro e despido diante do texto e da sua “fome” de se dizer inteiro.* imagem: São Marcos, iluminura em manuscrito dos Evangelhos, da escola da corte de Carlos Magno, c. 810. (Biblioteca Municipal de Trier, Alemanha).
Francisco Martins
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