Ao longo dos últimos anos a Igreja Católica tem vindo a perder influência junto da sociedade portuguesa. O número de participantes nas celebrações dominicais decresce continuamente; o mesmo acontece com o número de casamentos e baptizados. Por outro lado, a aprovação de leis explicitamente contrárias ao magistério católico deixa patente um progressivo afastamento dos valores cristãos.Se apesar de tudo a Igreja em Portugal parece, por enquanto, aguentar o embate, o mesmo não se pode dizer da maior parte dos países europeus, onde um já longo processo de secularização tem vindo a reduzir os cristãos a uma minoria cada vez menos representativa. Os ecos que chegam de países vizinhos e tradicionalmente católicos, como a Espanha ou a França, são francamente desanimadores.Qual o significado, podemos interrogar-nos, desta crescente onda de secularização? Por que razão tantos europeus manifestam uma profunda indiferença em relação à Igreja? Ao longo da sua história a Igreja teve muitas vezes que enfrentar a hostilidade de governantes e grupos de cidadãos. Actualmente, contudo, talvez não seja a hostilidade a nota dominante, mas antes a indiferença. Para muita gente, principalmente entre os jovens, a Igreja é simplesmente uma velha instituição que pouco tem a dizer aos homens e às mulheres do século XXI. Pouco sabem dela, aliás. Os seus conteúdos doutrinais são, para muitos, tão bizarros como os mitos da Antiguidade, e os seus rituais não passam de curiosidades medievais.Estaremos realmente a assistir ao início de uma era pós-cristã? Será que dentro de alguns séculos o cristianismo será apenas uma entre as muitas religiões que constam dos livros de história mas com as quais já ninguém se compromete?Não creio. A Igreja sofrerá, inevitavelmente, transformações muito importantes, mas não deixará de ser no mundo uma presença significativa e activa, em particular nas sociedades ocidentais, que no momento presente parecem poder dispensá-la. O cristianismo marcou o Ocidente de forma muito profunda, e julgo que não tardaremos muito a reconhecer que o seu abandono se traduzirá na inevitável perda de alguns dos traços mais significativos da nossa civilização. Damos hoje por adquirida, por exemplo, a ideia de que todos somos iguais em dignidade enquanto membros de uma mesma humanidade. Não percebemos, contudo, que esta herança cristã, conquistada, ao longo de séculos, com muito sofrimento e esforço, corre o risco de desmoronar-se uma vez arrancada das suas fontes.Os ciclos da história são lentos, e o futuro, mesmo nos tempos acelerados que vivemos, precisa ser cuidadosamente preparado. Não adianta, por isso, enveredar por um voluntarismo desmedido que dispare em todas as direcções. As dificuldades são muitas vezes purificadoras, e talvez os tempos que vivemos sejam o anúncio de uma Igreja mais vigorosa e renovada. Por agora há que aceitar ser minoria. Minoria, sim, mas criativa. Trata-se da expressão utilizada pelo Papa Bento XVI numa conversa com os jornalistas, durante a recente visita à República Checa. Questionado sobre a profunda secularização que afecta a sociedade deste país, onde a Igreja é uma minoria, Bento XVI afirmou que "normalmente as minorias criativas determinam o futuro e, neste sentido, a Igreja Católica deve compreender-se como minoria criativa que tem uma herança de valores que não são algo do passado, mas uma realidade muita viva e actual". (notícia em zenit.org)Mas que significa, afinal, ser minoria criativa? Ou, dito de outra forma, o que poderá fazer da Igreja uma instituição criativa, mesmo quando se encontra numa situação minoritária? O adjectivo criativo é da mesma família que o verbo criar. Assim, A Igreja será criativa se tiver a capacidade para recriar a sociedade, oferendo-lhe vida e apontando um rumo novo.A meu ver, tal não será possível a menos que a Igreja cultive três atitudes fundamentais. Em primeiro lugar, a capacidade para acolher o nosso mundo e amá-lo tal como ele é. É a este mundo, com as suas luzes e sombras que a Igreja é chamada a oferecer-se. Em segundo lugar, a confiança em Deus. A Igreja não é mais uma instituição humana, e pouco ou nada terá a oferecer aos homens se deixar corromper a confiança de que é um instrumento de Deus ao serviço dos homens. Confiar sobretudo nos meios humanos, transformando a Igreja numa empresa eficaz, não pode resultar. Finalmente, a atitude de discernimento. Nós, cristãos, precisamos escutar continuamente os tempos. Só assim poderemos entrar em sintonia com o mundo e responder às suas necessidades e angústias. Na sua conversa com os jornalistas o Papa apontava três prioridades que podem muito bem orientar a nossa acção: na sua opinião, a contribuição da Igreja deve acontecer em três níveis: intelectual, educativo e caritativo.“Minoria criativa”. Expressão cheia de esperança que me desafia a ser fiel à vocação de cristão, mesmo se a Igreja parece fora de moda e a mensagem cristã ameaça desaparecer por detrás de mais uma curva da história.Bruno Nobre
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