Não me recordo por que lá ia, também não era importante. Os amigos não precisam de motivos. São. O seu gabinete ainda era o pequeno, onde as paredes já não tinham espaço para mais recordações. Lembro-me que havia mais que uma imagem, mas a fotografia da Bailarina foi a que nunca esqueci. Perguntou-me se queria que me explicasse o porquê daquelas fotos ali. Consenti. Naqueles anos queria que me explicasse tudo. Até o pormenor na parede por cima da sua secretária. Contou-me então que no inicio de cada ano escolhia sempre três propósitos, três valores em que gostaria de crescer ao longo daquele ano, depois escolhia três imagens, que lhe fizessem recordar os propósitos e colocava-as na parede, por cima da sua secretária, onde passava grande parte do tempo. A bailarina simbolizava a liberdade, dançava de braços abertos, suaves, como se tocasse tudo e não se deixasse prender por nada. Ele estava de partida, tinha de se preparar, e este era um bom propósito…O inicio de ano é uma altura privilegiada para parar, avaliar e fazer planos. O ciclo da vida que se interrompe para um recomeço. Como todos os tempos, este pode ser vivido das formas mais diversas, com maior ou menor intensidade, entrega, consciência… Como todas as oportunidades que nos são dadas, podemos tirar mais ou menos proveito deste tempo.
Este tempo de projecção de um novo ano, para além das mudanças mais práticas de rotinas que queiramos alterar ou mesmo perpetuar, pode ser também um tempo muito fértil para pensar valores de fundo que precisem ser reconsiderados, que há muito passaram da emoção à razão e talvez precisem de voltar a fazer o caminho de volta para que continuem assim a passar pela vida com mais coerência.
Estes propósitos que funcionam como cor de fundo na tela do que queremos pintar este ano, definidos à partida, podem trazer o bem de nos orientar como instrumento para uma maior fidelidade ao que somos e queremos.
A consciência de que a vida é tão preciosa para ser toda ela um grande improviso, dá sentido a estes momentos de paragem e reflexão.
O que preciso de aprofundar para que a minha relação comigo mesmo e com os outros cresça?
Talvez passe pela Humildade, por trabalhar este sentido de me reconhecer como de facto sou, com limites e vitórias, ou pela simplicidade de distinguir o indispensável do acessório e saber viver com o primeiro, ou até mesmo pela Alegria, para que dependa cada vez menos de grandes coisas exteriores… Cada um terá os seus propósitos, os que mais se adequam a si, à fase da vida em que está e às expectativas que tem em relação a este próximo ano.
O importante é parar para pensar o que quero deste próximo ano, como quero estar no que faço e o que preciso de melhorar para o conseguir. Que atitudes de fundo? O importante é não deixar tudo ao acaso e à arbitrariedade, a vida é demasiado valiosa para isso.
Ana Sampaio
Fonte: http://www.essejota.net/
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