Já todos tinham saído e parecia que não sobrava nada. Pegou na vassoura e curvou-se para começar a varrer… o seu pensamento voava pelos últimos dias. Tantas caras, tantas palavras, tantas conversas pela metade. Era tempo de partir outra vez. A vassoura varria o chão e a memória os dias. A vida seguia o curso normal e ao mesmo tempo diferente. E não sabia bem porquê. Estava tudo ainda demasiado próximo, nada se podia dizer sobre tanto…A vassoura varria o chão e ela, curvada, agradeceu só.Depois de um grande acontecimento a vida altera-se, deixa de seguir o mesmo rumo, mesmo que no meio dela não percebamos bem a diferença: as pessoas, as relações, os acontecimentos mudam-nos. Mudam as nossas opções e os nossos caminhos. Depois de um grande acontecimento, o ímpeto de qualquer pessoa leva-a inevitavelmente a olhar para trás e daí, tirar conclusões: pequenas, grandes, mais ou menos ponderadas, mais ou menos acertadas. Acredito que o dinamismo vital de cada um lhe pede que, a certo ponto, olhe para trás.
Avaliar é, portanto, este movimento de olhar para o que passou e daí retirar algo. Não falo de um avaliar que se limite ao julgar ou ao medir mas um processo contínuo de aprendizagem. Uma atitude que está de braços dados com o agir, que o modifica e, de certa forma, o conduz.
Este olhar, muitas vezes subestimado e delegado para último plano, pode conter tanta vida e tanto fruto como o agir em si. O modo como avaliamos limita o caminho que faremos a partir daí. Com a urgência da máxima produção e do máximo lucro, o relógio do mundo começa a deixar de contemplar estes momentos de paragem e estas decisões começam a ser cada vez mais nossas, exigências de nós para nós, frente ao mundo.
Reconheço em mim esta necessidade de olhar para o caminho percorrido? Dou-lhe ouvidos e espaço?
Depois dos confetis pode-se dar a maior festa, a de me alegrar com o que correu bem e quero continuar ou a de tomar consciência das minhas limitações e faltas e, a partir daí, seguir em frente. Tudo isto é caminho, tudo isto faz crescer. Esta paragem pode por vezes fazer-nos avançar mais no caminho do que muitos trilhos percorridos, e esta fertilidade dita-a a qualidade deste olhar, a qualidade das avaliações que fazemos.
Três condições parecem-me fundamentais como garantia de alguma qualidade: a da verdade, a do tempo e a do proveito. E na falta destas três… a falta de verdade onde nos levará? Que poderemos construir sobre o que não é real? Avaliar tem um tempo, o tempo do compromisso e da distância, avaliar constantemente é também um erro, retira-nos a capacidade de desfrutar, de estar simplesmente presente. E por fim, para quê avaliar se o resultado disso não se traduz em mais vida, em mais fidelidade? O proveito que retirámos será a tradução viva desta opção.
Olhando para trás, consigo identificar frutos deste olhar? Consigo perceber as consequências desta opção de crescer com o que vivi, que mais tarde se tenha traduzido em vida?
Como nos diz Kierkegaard, “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.”
Para nós, cristãos, este olhar tem contornos muito especiais. Com a consciência do terreno, mas de olhos postos nos céus. A avaliação é um passo deste caminho de desejo de proximidade encarnado em nós. Principalmente, é uma avaliação segundo os critérios de Deus e não os nossos. O segredo está na procura desta comunhão de valores e disposições, que os critérios de Deus se tornem os meus, que o meu olhar se faça cada vez mais Seu.
Ana Sampaio
Nenhum comentário:
Postar um comentário